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Turismo

Embarque na Inclusão: quando o lazer vira escola de mundo

Projeto do Sesc-DF proporciona viagens totalmente gratuitas focadas no desenvolvimento pessoal, integração social, vivência cultural e sensibilização para a preservação do patrimônio histórico e ambiental

Publicado em 26/10/2026 18h55 Atualizado em 26/10/2026 19h29
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Viajar ainda está distante da realidade da maioria dos brasileiros. O conjunto de desigualdades sociais atravessa a atividade que, muito além de lazer, se configura como base estrutural do desenvolvimento humano. Segundo pesquisa da Quaest, 75% da população não realizou nenhuma viagem de férias no último ano. Entre os brasileiros que recebem até dois salários mínimos, 87% não tiveram a oportunidade de conhecer novos lugares nos últimos 12 meses. O percentual cai para 44% quando o grupo é daqueles que ganham mais de 5 salários mínimos. A pesquisa foi realizada em março de 2026, com 2.004 entrevistas em 120 municípios brasileiros.
 

Na contramão dessa realidade de desigualdades, 38 pessoas de baixa renda do Distrito Federal embarcaram para Salvador no último dia 16 de novembro pelo Projeto Turismo Social: Embarque na Inclusão, do Sesc-DF. O grupo foi composto por jovens de 12 a 17 anos e seus responsáveis legais, e protagonizou um roteiro que combinou arte, história e belezas naturais, estendendo-se até 20 de novembro.
 


Outras lentes para o mundo
Ana Cristina, 49 anos, conheceu o “Embarque na Inclusão” por meio de um link enviado pela escola do filho Ícaro, de 17 anos. Ela custou a acreditar que aquilo era algo sério. “A gente está tão acostumado a não conseguir nada de graça, que eu pensei que era mais um daqueles links que não dão em nada. Mas aí o Ícaro insistiu, pediu: ‘Mãe, me inscreve”. A surpresa para Ana, que desde criança lidou com as piores atrocidades que uma mulher pode enfrentar, foi a certeza de que o “Embarque na Inclusão” existia e que ela e o filho foram selecionados para a viagem a Salvador.
 

“Eu já tinha pedido a Deus. Eu falei: ‘Senhor, eu estou tão cansada. Eu queria tanto descansar com o Ícaro’. Porque a gente está passando muita provação. Hoje, a gente mora de favor na casa no meu ex-sogro. Eu estou desempregada. O Ícaro recebe o BPC (Benefício de Prestação Continuada), e eu não posso trabalhar para poder cuidar dele”, disse a mãe do adolescente que convive com o TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade). 
 

Ana conta que não acreditou quando recebeu a mensagem do Sesc-DF solicitando a entrega da documentação para participar do “Embarque na Inclusão”. “Na hora que eu vi o nome do meu filho, eu chorei. Eu falei: ‘Senhor, obrigado’. Eu até pensei: ‘como a gente vai viajar sem dinheiro?’. Quando eu vi, o Sesc tinha alimentação gratuita, hospedagem, passagem, passeio. Eu até perguntei: ‘tem que pagar o passeio?’. Mas era tudo de graça. Eu não consigo explicar o tamanho da minha felicidade.”

 

Ana e Ícaro na Ilha dos Frades | Foto: Marcos Altino



 

Ana tem suas convicções para acreditar que foi selecionada por uma providência divina. Ícaro termina o ensino médio neste ano, e Ana não tinha dinheiro para viabilizar a participação do filho na formatura. Mas seu sonho foi realizado. “O Sesc nos deu o presente da formatura que eu queria. É muito além de uma viagem: é um presente para mim e para meu filho”.
 

Ícaro, que quer ser policial, viveu a experiência como ninguém e, em nenhum momento da viagem se preocupou em disfarçar a ansiedade. Suou frio no primeiro voo de avião. Se desafiou e mergulhou no mar pela primeira vez. Esteve atento às informações sobre os locais históricos de Salvador – e questionou se tudo aquilo dourado na Catedral-Basílica Primacial de São Salvador era mesmo de ouro. A forma de externar a alegria e a satisfação era distribuindo abraços apertadíssimos na equipe do Sesc-DF que acompanhou o grupo. Sempre com um sorriso no rosto, Ícaro conseguiu o que queria: “conhecer pessoas novas, lugares novos e suas histórias”. Para ele, isso era o mais importante.
 

A expectativa de Ícaro não se trata apenas de uma vontade juvenil. Segundo o antropólogo Michel Alcoforado, “viajar aciona camadas de socialização, atualiza a visão de mundo e a percepção da capacidade de realização”. “Toda vez que você viaja, tem a possibilidade de trabalhar com outras lentes. Essas lentes são centrais, porque elas expandem a percepção que se tem, o jeito pensado de viver”, explica Alcoforado.
 


Novos repertórios
Jeferson Patrício de Jesus, 26 anos, nunca tinha visto o mar. Embora a imensidão de águas salgadas fosse um dos principais temas de seus sonhos, a primeira vez que ele vivenciou essa experiência foi com o “Embarque na Inclusão”.
 

Filho de uma trabalhadora catadora do antigo Lixão da Estrutural –  que sempre foi arrimo de família –, Jeferson foi escolhido pelo sobrinho Lucas, de 15 anos, para embarcar para Salvador. “Só disse: ‘Vamos’”, conta. 
 

Diante do mar, Jeferson lembrou de quando teve burnout, aos 22 anos, e entrou em depressão profunda. “Por seis meses eu dormi em cima de um lixo. Não tomava banho, não escovava dente, nada”, relembra com os olhos fixos nas pequenas ondas que quebravam à sua frente. Ele contou que, em um suspiro de força, resolveu voltar para a casa da mãe. “Um dia estava chovendo, e essa chuva alagou toda a casa da minha mãe. Lembro da minha mãe parada em um cantinho. Ela disse assim: ‘Meu Deus, será que vou viver pra sempre assim?’ Aquilo doeu fundo no coração. Foi quando eu postei um vídeo mostrando a minha realidade. Fui dormir. No outro dia, tinham 3 milhões de visualização, 48 mil seguidores”, conta o influencer, que hoje tem 570 mil seguidores em seu perfil no Instagram e faz disso seu trabalho.
 

Assim como o oceano faz diariamente, Jeferson se reorganizou, encontrou novos equilíbrios e aprendeu a navegar com o que muda. Os ventos que sopraram em sua vida o levaram para o “Embarque na Inclusão”, e foi na viagem a Salvador que ele percebeu que viajar amplia horizontes. “Quando a gente vive isso aqui, a gente enxerga outras culturas, outras formas de viver. Vemos que o mundo não é só aquela coisa que apresentam para as pessoas. Quando você enxerga com os próprios olhos, você sai cheio de informações, conhecimentos e gratidão”.

 

Lucas (à esquerda) e Jeferson em um passeio de barco proporcionado pelo
Embarque na Inclusão | Foto: Marcos Altino



 

O antropólogo Michel Alcoforado explica que: “Comumente na sociedade brasileira, se acredita que quem viaja tem capacidade de ver coisas que os outros não viram. Se eu vi coisas que os outros não viram, eu construo uma experiência única, autêntica, que talvez seja o principal valor hoje quando se pensa na modernidade”.
 

Laços
Juliana Araújo tem 17 anos e foi para Salvador pelo “Embarque na Inclusão” com a irmã gêmea Júlia e a mãe Marta, de 52 anos. Foi a primeira vez que Juliana saiu da cidade natal, andou de avião e viu o mar. Apesar de tantas novidades, Juliana acredita que a viagem foi uma forma de fortalecer ainda mais os laços com a mãe.
 

“Minha mãe já fez muita coisa pra gente. Eu sinto que trazendo ela pra cá, seria uma forma de retribuir o que ela fez. Claro que não tudo, porque ela deu a vida pra gente. Mas é um sonho realizado dela e nosso também”, conta, falando por ela e pela irmã.
 

De longe, era possível observar a emoção de Juliana e Júlia ao ver a mãe vivenciando experiências que pareciam não se enquadrar em sua realidade. Dona Marta nasceu em Grajaú, no Maranhão. Viveu muitos anos na roça e, quando quis tomar novos rumos na vida, foi trabalhar como doméstica. Embora tenha nascido em um estado que tem um dos litorais mais bonitos do Brasil, dona Marta só conheceu o mar aos 18 anos, quando viajou de carro com os patrões para Santa Catarina – embora o objetivo da viagem não fosse o lazer.
 

Mulher negra, nordestina e conhecedora da dureza da realidade de uma trabalhadora doméstica, dona Marta conta que o lugar que mais gostou na viagem a Salvador foi o Pelourinho. Localizado no Centro Histórico da cidade, o bairro reúne casarões coloniais coloridos, igrejas barrocas, ladeiras cheias de manifestações culturais que resistem ao tempo. Pelourinho é um símbolo vivo da formação social, cultural e arquitetônica do Brasil, marcado pelas expressões da cultura afro-brasileira. “É lindo. Ali tem gente da gente. Aquelas ruas parecem muito minha cidade”, diz dona Marta.

 

Juliana (à esquerda), dona Marta e Júlia curtem a praia juntas | Foto: Marcos Altino



 

Direito de todos
As histórias compartilhadas no “Embarque na Inclusão” mostram a necessidade de enquadrar o turismo como direito de todos e reafirma a importância do turismo social, base do projeto protagonizado pelo Sesc-DF. “É sobre o direito à convivência familiar e comunitária, é o direito ao lazer, é o direito ao desenvolvimento saudável”, explica a assistente social do Sesc-DF Ellen Inocêncio Barbosa, que acompanhou o grupo do “Embarque na Inclusão” com destino a Salvador. 
 

Por estar diretamente ligado à dignidade humana, o turismo se conecta à Declaração Universal dos Direitos Humanos, que garante a toda pessoa o direito ao descanso e ao lazer. Ao eliminar barreiras econômicas e sociais, o turismo social faz com que esse direito seja exercido. 
 

Embarque na Inclusão
O Projeto Turismo Social: Embarque na Inclusão é uma iniciativa do Sesc-DF que tem como objetivo democratizar o acesso ao lazer e ao turismo para estudantes de 12 a 17 anos e famílias em situação de vulnerabilidade socioeconômica. O projeto proporciona viagens totalmente gratuitas focadas no desenvolvimento pessoal, integração social, vivência cultural e sensibilização para a preservação do patrimônio histórico e ambiental.
 

Neste ano, o Embarque na Inclusão realiza sua segunda edição. Além de Salvador, o programa tem como destinos Rio de Janeiro, Recife e Porto Seguro. Todas as viagens são realizadas nos meses de outubro e novembro. No total, 228 pessoas foram contempladas neste ano, entre adolescentes e seus responsáveis.

 

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